Nossas crianças e a tecnologia, hoje.

 

O ano era 2006, nos meus primeiros contatos com alunos, começando como instrutor de curso de Informática. Sem muita experiência na área, mas com muita vontade, pelos próximos 10 anos seria um dos meus principais focos.

No primeiro contato com um pai de aluno, fui questionado sobre qual atitude tomar a respeito de um dilema:

" - Compro um computador para meu filho, agora que vai começar o curso ou espero ele terminar?"

Pensei por alguns segundos e me veio um filme na cabeça.

Eu, nascido na década de 80, uma época onde a tecnologia começava a caminhar e a grande maioria das crianças desta época e até a de 90, eram crianças que brincavam na rua, faziam pesquisas em enciclopédias, via jornal impresso, via revistas impressas, assistia a TV Cultura e a interação era grande. Quando queria ver alguém ia até a casa da pessoa.

Não que seja orgulho disso ou tenha sentimento de superioridade por ter vivido assim, o que quero que compreenda é que em tudo havia mais contato, mais olho no olho, mais conversa e até discussões frente a frente. E o mais importante entrávamos em acordo, sobre como e o que faríamos a respeito das decisões.

Além disso tudo, vivemos numa época onde a tecnologia engatinhava. O que tinha era um curso de datilografia. Meus pais não tiveram condições financeiras para um curso deste. Era terrível ouvir a frase: "- Você precisa de datilografia para conseguir emprego!". Era o dilema de época. Logo depois surgiu o curso de "Computação", onde as condições financeiras não eram lá das muito boas.

Não herdávamos a questão tecnológica dos nossos pais, que mal faziam ideia do que era tudo isso. Portanto era tudo baseado no interesse da criança em saber que era necessário. Datilografia, computação, a tecnologia da época. Ali era o divisor de águas de quem seguiria o caminho tecnológico.

Em 1996 meu primeiro curso, aquele 486DX4/100 com 8 MB de memória e um HD de 512 MB, com o monitor com letras verdes ou cor de abóbora.



Voltando, então, resumindo toda a viagem no tempo, diante da pergunta da mãe do aluno, resumindo toda a história triste, na minha época 😁, anos 80 e 90, nós tínhamos contato com pouca tecnologia até então.

Ter um computador em casa nesta época era um pouco difícil. Não havia como herdar o uso de tecnologia, tudo era novo. E além do mais valores eram altíssimos e muita gente não tinha condições de ter equipamentos em casa.

E quando tínhamos a oportunidade de ter um curso, aproveitávamos ao máximo as duas horas semanais, como era uma época não tão distante.

E a minha resposta à pergunta foi baseado nisso.

Dar um computador àquela criança, iria de uma certa forma desmotiva- la a aprender algo importante. Ela não iria ter interesse em aprender algo, porque iria ter em casa o que ela iria ver somente no dia do curso. E aconteceu. Abandonou o curso, perdi um aluno da sala...

O aprendizado de Tecnologia, na época era, em sua maioria, na seguinte ordem:

  1. O equipamento em si. Suas partes, seu funcionamento, sua configuração.
  2. O Sistema operacional. Suas configurações, criação de arquivos, organização através de pastas.
  3. A internet. O histórico, como surgiu, qual o objetivo, regras, como utilizar de forma correta, etc.
  4. Recursos úteis. Planilhas, edição de texto, edição de imagens, edição de vídeos e outras funções
Encerrávamos o curso, capacitados, nem que fosse basicamente sobre cada coisa, cada função ou até a forma com qual utilizaríamos o equipamento de informática.

O que temos hoje? As escolas de informática, quase extintas.

As crianças não têm mais interesse em fazer um curso, pois já nascem entre a tecnologia, ja nascem entre equipamentos tecnológicos e lógico, vão aprender o que é mais fácil ou fútil...
Dancinhas, truques para burlar regras, jogos...

Para quê aprender planilha se posso achar dicas que "não querem que você saiba" no aplicativo de vídeos?
Para quê aprender a escrever se meu teclado sugere texto e corrige o que digito?
Para quê entender sobre pixels, resolução, formatos de imagens se um aplicativo faz para mim ao apenas tocar num "botão"?

Acha normal? Vai então uma comparação que vai te fazer entender tudo...

Para que aprender cálculos, entender fórmulas se minha "calculadora" faz isso?

Sempre foi assim.
Por que complicar se posso simplificar?
Por que me mexer se posso programar ou pagar algo ou alguém que faça por mim?

A ciência explica tudo isso de uma forma resumida: Nosso cérebro nos estimula a não gastar energia com algo e procurar um caminho mais curto para realizar qualquer tarefa, preservando assim nossos "recursos" disponíveis, nossa energia.

Só que, nos últimos anos isso vem sendo feito exageradamente. Vem sendo implantada nas nossas crianças, contagiadas por adultos. Cada dia mais, temos preguiça de fazer tudo.

Estamos entrando numa era de conforto excessivo que nos leva ao sedentarismo. Estamos dependentes de soluções rápidas e qualquer coisa um pouco mais completa nos frustram por não sermos capazes de resolver de forma rápida...

Estamos caminhando diretamente para graves problemas psicológicos. É preciso lutar contra tudo isso que estamos vivendo hoje em dia. E tentar ao máximo polpar as crianças disso.

Emerson R. Gallo

Técnico em Informática, Técnico em Comunicação Visual e Formado em Superior da Tecnologia da Fotografia. Há mais de 10 anos Técnico em Informática no setor Público, Há 19 anos na área de TI. Acredito que de tudo tiramos aprendizado e que nunca é tarde para mudar e aprender.

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